Durante o mês de junho, comemora-se em todo o mundo o “Orgulho LGBTQIA+”. Manifestações nas ruas, empresas estampando em suas logomarcas nas redes sociais as cores da bandeira alusiva à causa, discussões aprofundadas em diferentes fóruns sobre a necessidade de uma lei no país, que torne oficial o casamento homoafetivo foram alguns dos movimentos que marcaram a época. Muito se falou também sobre o evento que deu origem a essa data comemorativa: ocorrida no bar Stonewall Inn, em Nova York, em 28 de junho de 1969, a rebelião realizada por frequentadores do estabelecimento intencionava dar um basta nas batidas policiais que aconteciam no local e, por fim, acabou se tornando o marco do movimento de liberação gay e o momento em que o ativismo pelos direitos LGBTQIA+ ganhou finalmente o debate público e as ruas.

De lá para cá, algumas conquistas aconteceram no âmbito da comunidade, mas não sem muita luta. O próprio bar Stonewall Inn, que funciona até hoje no mesmo lugar, foi tombado como patrimônio nacional. Aqui no Brasil, no entanto, os avanços no tema demoraram muito para chegar. Por exemplo, apenas depois de quase duas décadas da apresentação do Projeto de Lei 1.151, em 1995, pela então deputada federal Marta Suplicy, que visava disciplinar a união civil entre pessoas do mesmo sexo, ela foi declarada legal pelo Supremo Tribunal Federal, em maio de 2011. A partir de então, ficou decidido que o reconhecimento das uniões estáveis entre casais homoafetivos seguiriam as mesmas regras que aquelas adotadas entre casais heterossexuais. Desta forma, os direitos concedidos a casais homossexuais se assemelham à união estável em alguns aspectos, como pensões, aposentadorias e inclusão em planos de saúde. Mas foi apenas em 2013, que o Conselho Nacional de Justiça publicou uma resolução que permitiu aos cartórios registrarem casamentos homoafetivos. No entanto, vale destacar que nenhuma lei foi aprovada nesse sentido e o que garante os casamentos e uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo é a jurisprudência.

Para apresentar um panorama de como e onde vivem os casais homoafetivos no país, fizemos um levantamento bastante minucioso em nossas bases de dados.

Onde vivem

Segundo dados do último Censo realizado no país, em 2010, os casais homoafetivos coabitantes estão concentrados nas maiores cidades brasileiras, sendo que mais da metade (52,61%) entre as capitais do Sudeste, região onde residem menos de 40% dos brasileiros. Em segundo lugar neste ranking está o Nordeste, com 20% de casais homoafetivos. Já o Norte tem o menor número de casais do mesmo sexo, apenas 5,89%.

Em números absolutos, São Paulo é a cidade com mais casais homoafetivos, mas em 2010, Porto Alegre e Florianópolis eram as cidades que possuíam maior proporção de casais deste perfil. Já quando olhamos para os estados brasileiros, o resultado apresentado pela PNAD 2019 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) mostra o Distrito Federal com um resultado duas vezes maior que o Acre, que se encontra em segundo lugar no ranking. Amapá, São Paulo e Rio Grande do Sul completam a lista.

Quanto ganham

Quando o assunto é renda, os dados são bem expressivos: os casais formados por pessoas do mesmo sexo têm, proporcionalmente, renda média mensal maior que a dos casais heterossexuais. Mais especificamente, estudos mostraram que enquanto a renda per capita brasileira em 2019 atingiu cerca de R$1.500,00 mensais, em lares homoafetivos ela passou de R$3.500,00. Os números mostram, ainda, que a maior porcentagem de casais heterossexuais se concentram na faixa de renda mensal de 1 a 2 salários mínimos. Já entre os casais homoafetivos, a maior porcentagem está na faixa que vai de 5 a 10 salários mínimos. No caso dos domicílios com renda mensal entre 10 e 20 salários mínimos, o percentual de casais homoafetivos nessa faixa de rendimento chega a ser quase três vezes mais que em lares com casais de pessoas de sexos diferentes.

Outro detalhe que se destaca é o fato de um chefe de família homoafetivo ganhar, em média, 1,95 vezes mais que um chefe de família heterossexual. O cônjuge de família homoafetiva, por sua vez, ganha em média 2,22 vezes mais que o heterossexual.

Mas a que se deve toda essa diferença? Segundo nossas análises, decorre de uma combinação de fatores, sendo que o principal deles é o grau de escolaridade.

Vamos aos dados:

  • Os casais homoafetivos possuem um maior grau de escolaridade em geral.
  • Enquanto apenas 1 a cada 10 casais heterossexuais declaram que pelo menos um deles possui escolaridade acima do ensino médio, quase um terço dos casais homoafetivos declaram ter cruzado esta fronteira (28%).
  • A maior porcentagem de casais heterossexuais encontra-se na faixa de 5 a 10 anos de estudo, ao passo que a maior porcentagem de casais homoafetivos concentra-se na faixa de 10 a 14 anos de estudo..

Outros pontos que caracterizam essa relevante diferença está no fato, como dito anteriormente, de casais homoafetivos concentrarem-se em grandes centros metropolitanos, regiões onde os salários são maiores.

Como consomem

Uma renda familiar maior e famílias menores proporcionam, consequentemente, aos casais homoafetivos uma possibilidade de consumo diferenciada. Estudos mostram que, não apenas os casais, como todo o público LGBTQA+ consome mais bens de luxo, design e moda, além de viajar quatro vezes mais que a média da população brasileira. De acordo com dados da Embratur, de 2017, esse público apresenta gastos per capita, em média, 30% superiores, gastando mais em cultura e arte, lazer, entretenimento e vida noturna, dando preferência a estabelecimentos de boa qualidade e amigáveis, onde sejam respeitados e bem acolhidos. Ainda segundo levantamento realizado em 2020 pela Organização Mundial do Comércio (OMC), a atividade turística dessa comunidade movimenta, anualmente e em termos globais, cerca de US $3 trilhões. Os dados mostraram também que o mercado de turismo é um dos que mais investem nessa comunidade.

Outro mercado com grande potencial é o de vinhos. Segundo a importadora La Pastina, que traz da Europa o Orgullo Wine, vinho dedicado ao público LGBTQA+, estudos indicam que aproximadamente 40% desse público consome vinho durante a semana.

Como compõem a estrutura familiar

Outro fator que influencia a renda superior entre casais do mesmo sexo é a composição familiar. Geralmente composto por famílias menores, a renda per capita dentro do domicílio tende a ser maior. Segundo nossos estudos, 52% dos casais homoafetivos na faixa entre 25 e 44 anos não têm filhos. Já a porcentagem de casais heterossexuais nessa mesma faixa etária sem filhos é de apenas 8%. Essa realidade fica ainda mais evidente quando analisamos todas as faixas etárias e constatamos que apenas 18% dos casais homoafetivos no Brasil têm filhos contra 76% dos casais heterossexuais.

Onde moram

Na hora de escolher onde morar, a maioria dos casais homoafetivos demonstram preferência por casas de rua (65,39%) e apartamentos (30,35%). Apenas 3,25% optam por casas de vila ou condomínio. No entanto, apesar de apresentarem um padrão de vida mais elevado, ter uma casa própria não parece ser prioridade: 43,12% dos casais homoafetivos moram de aluguel, um número quase 3 vezes superior ao dos casais heterossexuais (16,39%).

Como se declaram quanto à religião

Quase metade dos casais homoafetivos se auto declaram católicos. Porém, quando comparados com os casais heterossexuais, os números mostram que eles são mais ateus, agnósticos ou sem religião. É também entre eles que há maior presença entre a religião espírita: 14,8% de casais homoafetivos contra 2,1% de casais heterossexuais. Essa diferença também é percebida quanto à religião evangélica, mas nesse caso há bem menos casal homoafetivo autodeclarado evangélico.

Outros números

Os levantamentos das PNADs Contínua na última década, mais precisamente entre 2010 – quando foi realizado o primeiro censo com um olhar para os casais homoafetivos – e 2021, mostrou também que o número de casais que se declararam homoafetivos praticamente dobrou.

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