
Supermercados, farmácias, postos, conveniência e laboratórios vêm crescendo. Mas nem todos se consolidam — e a diferença muda o que cada número significa.
A primeira leitura dos dados é intrigante, mas está errada. O Brasil teria passado de 9,8 milhões para 14,6 milhões de estabelecimentos de varejo e serviços entre dezembro de 2019 e março de 2026, e a participação das empresas independentes — sem filiais — teria subido de 93,3% para 94,4%. Daí se concluiria que o mercado estaria pulverizando, e não se consolidando.
Não está — pelo menos não nos setores referidos acima. Para o varejo e serviços como um todo, o crescimento de 48% é, em grande parte, formalização: MEIs e pessoas jurídicas por trás de profissionais individuais, sem loja. Com o denominador crescendo, qualquer participação percentual cai, inclusive a das grandes redes, sem que nenhuma loja tenha fechado. Outro problema é que, diferentemente de redes próprias, franquias não são facilmente identificáveis, levando a forte subestimativa do grau de consolidação em segmentos como alimentício, cosméticos, dentre outros tantos.
Todos estes problemas têm conserto, é claro, mas para os objetivos deste artigo vamos manter as coisas mais simples, restringindo o universo a segmentos em que a comparação entre rede e independente faz sentido, com pouca distorção pela inclusão de MEIs e franquias. O que aparece é consolidação em três dos cinco segmentos, crescimento sem mudança de estrutura em dois, uma concentração de segundo nível em farmácias e, no setor financeiro, uma retração que é de três redes, não do setor.
Por que só cinco segmentos
Comparar redes com independentes só é válido quando o independente é uma loja de verdade. Isso exclui:
Atividades com MEI. Moda, alimentação, minimercados, pet: a contagem de independentes é inflada pela formalização, e o pico de 2021 é MEI, não loja nova.
Atividades com pessoa jurídica de profissional individual. Odontologia foi de 50 mil para 125 mil CNPJs sem filial em seis anos; clínicas médicas, de 134 mil para 327 mil. Não são consultórios novos nessa proporção.
Atividades com franquia relevante. O franqueado tem CNPJ próprio e conta como independente, o que inverte o sinal da consolidação. Sem estatísticas de franquia por segmento, não há como corrigir; melhor excluir.
Atividades cujas “filiais” não são pontos de atendimento. Seguros, financeiras, escritórios administrativos.
Sobram cinco segmentos com ponto físico, rede própria predominante e sem MEI: supermercados e hipermercados, farmácias, postos de combustível, lojas de conveniência e laboratórios de diagnóstico. A base para eles começa em agosto de 2021, porque algumas classificações de atividade não são comparáveis com a safra de 2019.
Em todos, medimos duas coisas separadas: quantas unidades pertencem a redes (matriz mais filiais de quem tem pelo menos uma filial) e quantas pertencem a independentes. Quando a primeira cresce e a segunda não, o segmento consolidou.
Onde o varejo consolida, e onde só cresce
| Segmento | Em rede | Independentes | Part. das redes | Redes 40+ |
|---|---|---|---|---|
| Supermercados | +23,1% | −0,5% | 28,0% → 32,5% | 34 → 52 |
| Postos de combustível | +26,2% | +16,3% | 22,1% → 23,6% | 7 → 22 |
| Farmácias | +15,2% | +0,9% | 20,6% → 22,9% | 50 → 46 |
| Lojas de conveniência | +44,5% | +46,1% | 11,7% → 11,6% | 0 → 2 |
| Laboratórios de diagnóstico | +18,0% | +24,8% | 33,7% → 32,4% | 16 → 17 |
Ago/2021 → mar/2026. “Em rede” e “Independentes” são a variação no número de unidades. Fonte: GeoPop, módulo de empresas.
Dois padrões distintos.
Consolidação — supermercados, postos e farmácias. A rede cresce e o independente fica parado ou cresce menos. Supermercados é o caso extremo: as unidades em rede subiram 23% e as independentes caíram 0,5%. Toda loja nova do segmento nesses cinco anos foi para uma rede, e o número de redes com mais de 40 lojas passou de 34 para 52. Em postos, o movimento é de multiplicação de redes médias: de 7 para 22 redes com mais de 40 unidades, com concentração baixa e quase estável.
Crescimento paralelo — conveniência e diagnóstico. A rede cresce forte, o independente cresce junto ou mais, e a participação fica estável. O segmento expande sem mudar de estrutura. Conveniência merece nota: um recorte anterior, com o segmento delimitado de outra forma, mostrava queda de 10,6% ao ano. Redefinido o perímetro, as unidades em rede cresceram 44%. O colapso era um problema de classificação.
Farmácias: menos redes grandes, redes maiores
Farmácias é o único segmento em que a consolidação acontece em dois níveis ao mesmo tempo.
No primeiro nível, do independente para a rede: unidades em rede +15,2%, independentes +0,9%, participação das redes de 20,6% para 22,9%.
No segundo nível, entre as próprias redes: o número de redes com mais de 40 lojas caiu de 50 para 46, enquanto as lojas em rede cresceram 15%. As 10 maiores redes detinham 24,8% das lojas em rede em 2021 e detêm 30,8% hoje. O tamanho médio da rede subiu de 4,3 para 4,8 lojas.
| Farmácias | ago/2021 | jan/2024 | mar/2026 |
|---|---|---|---|
| Lojas em rede | 28.839 | 30.355 | 33.212 |
| Redes com 40+ lojas | 50 | 42 | 46 |
| Participação das 10 maiores nas lojas em rede | 24,8% | 29,0% | 30,8% |
Menos redes grandes, cada uma maior: em farmácias, uma parte relevante da expansão passou a ser aquisição. Nenhum dos outros quatro segmentos mostra esse movimento. Franqueados contam como independentes aqui, o que subestima levemente a participação das redes, sem alterar a direção.
Porte: o meio da pirâmide é quem cresce
Um recorte complementar acompanha 1.370 redes de todos os setores com mais de 40 filiais, em 15 versões trimestrais entre dezembro de 2019 e março de 2026. Como compara redes com redes, não sofre do problema do denominador. No último ano, descontadas as redes cujo salto veio de recadastramento e não de abertura de unidades:
| Faixa de filiais | Redes | Crescimento no ano |
|---|---|---|
| 41–60 | 596 | +7,6% |
| 61–100 | 376 | +8,4% |
| 101–200 | 231 | +6,2% |
| 201–500 | 115 | +5,0% |
| 501–1.000 | 30 | +3,0% |
| Mais de 1.000 | 22 | +0,6% |
O crescimento cai faixa a faixa conforme o porte aumenta. As 22 maiores redes do país, com 26% de todas as filiais desse universo, cresceram 0,6%. As redes de 61 a 100 unidades cresceram 8,4%. A expansão de rede no Brasil hoje é um fenômeno do meio da pirâmide: nem o independente de loja única, nem a rede de mais de mil filiais, mas a operação que já tem escala e ainda tem espaço para crescer.
A concentração dentro desse universo é alta e estável: as 10 maiores redes detêm 18,3% das filiais e as 50 maiores, 36,5%.
Serviços financeiros: a retração é de três bancos
No mesmo recorte de redes com mais de 40 filiais, serviços financeiros e seguros aparecem como o setor em maior retração: −4,7% no último ano, em 108 redes. Excluindo Bradesco, Santander e Itaú, o setor cresce 2,7%.
O Bradesco passou de 7.203 para 3.925 agências em seis anos, uma queda de 45%, em queda contínua em todas as 15 versões — não é ruído de cadastro. Os três, juntos, perderam 1.781 pontos só no último ano (Bradesco −893, Santander −675, Itaú −213), o suficiente para consumir mais de um ponto percentual do crescimento agregado de redes do país.
Fora dos três, o setor cresce: cooperativas, financeiras e correspondentes. Uma das maiores expansões de rede do país no último ano é de serviços financeiros não bancários, com mais de 11% de crescimento. O ponto físico financeiro está mudando de dono, não desaparecendo.
O que teríamos concluído sem as ressalvas
Cada uma destas frases sai direto de uma tabela da mesma base. Todas estão erradas.
1. “O Brasil abre 794 mil pontos de venda por ano.” Abre 794 mil CNPJs. Boa parte é MEI e pessoa jurídica de profissional individual, sem loja.
2. “O varejo está pulverizando.” O denominador cresceu 48% com formalização. Onde o independente é uma loja de verdade, o movimento é o oposto.
3. “As redes cresceram 4,6% no último ano.” Quase metade é recadastramento: redes com seis trimestres travados no mesmo número e um salto de 40% ou mais em seguida. O crescimento orgânico é 2,6%.
4. “Saúde é o setor que mais pulveriza.” É o dentista e o médico virando CNPJ.
5. “Lojas de conveniência estão em colapso.” Com o segmento delimitado corretamente, as unidades em rede cresceram 44%.
Nenhuma correção exigiu dado novo. Exigiu saber o que o dado mede, como o cadastro se comporta e o que muda de nome sem mudar de fato. Dado é insumo; a resposta está na análise.
Nota metodológica
1. Fonte. GeoPop, módulo de empresas (matriz, filiais e atividade econômica por CNPJ). Segmentos: safras de ago/2021, jan/2024 e mar/2026, cada uma lida na própria versão. Recorte por porte e setor financeiro: 15 versões trimestrais entre dez/2019 e mar/2026.
2. Unidade. “Rede” é uma matriz com pelo menos uma filial; “unidades em rede” são matriz mais filiais dessas empresas; “independente” é empresa sem filial. Franqueados são CNPJs próprios e contam como independentes.
3. Seleção de segmentos. Ponto físico de atendimento, rede própria predominante, atividade em que MEI não é permitido, sem pessoa jurídica de profissional individual como padrão. Segmentos com indício de reclassificação entre safras foram excluídos.
4. Crescimento orgânico. No recorte por porte, redes com salto de mais de 60% da variação anual num único trimestre e acima de 20% da base foram tratadas como recadastramento e excluídas do cálculo de crescimento.
5. Regionalização. Pela sede da empresa. Não indica onde as filiais estão; por isso não há corte regional neste artigo.
Quer saber como seu segmento se comporta?
Esta análise foi feita sobre o GeoPop, a base geodemográfica e de empresas da Cognatis. Quem tem equipe analítica própria acessa esses dados pela API GeoPop; quem quer autonomia com facilidade trabalha no NETTool pro, plataforma analítica com mapas integrados; e quem precisa da resposta direta — onde abrir, quanto vale um ponto — usa o MapPoint.ai, que aplica IA prescritiva sobre a mesma base. Dados, análise e prescrição: a mesma fonte, em três níveis de maturidade.
Reinaldo Gregori
Fundador e CEO da Cognatis
Economista pela FEA-USP, com mestrado em demografia pelo Cedeplar-UFMG. Atua há mais de vinte anos com geomarketing e demografia de negócios no Brasil e na América Latina.





